03 outubro 2008

ENTRE AMIGAS - "Ponto de Virada"

Por ‘Narrador’


“Senhora Bigorna. Senhora, não é uma boa. Ela poderá se ofender. Apesar de ser uma escritora, ela é antes de tudo uma mulher. E mulheres se prestam atenção aos detalhes. Melhor, talvez ‘Olá Birgorna’. Não é fácil escrever para chefe. Ainda mais com o objetivo de mostrar que tenho potencial para fazer algo melhor. Mas tenho de ter coragem e criar laços mais estreitos com ela. Afinal, o que tenho a perder? Talvez o emprego, caso ela se revele uma escritora autoritária. Por outro lado, onde ela arrumará alguém como eu - um ‘Narrador’ no superlativo do substantivo masculino? Na verdade, ela pode encontrar um melhor. Há sempre ‘alguns melhores’ por aí nesse nosso mercado repleto de iniciantes, ávidos por uma oportunidade. Quer saber? Vou arriscar. Já não sou tão jovem. Mas vou mostrar que continuo voraz como tal.”

Olá, Bigorna, tudo bem?
Gostaria de marcar uma conversa para tratarmos de alguns detalhes sobre o meu trabalho como narrador de suas histórias. Queria dar algumas sugestões para que eu possa desempenhar com mais afinco o meu trabalho, sem pretensão alguma de ensinar o seu ofício. Minha intenção é dar uma guinada. Acho que o narrador deveria ser capcioso, ardiloso. Hoje em dia, como é de seu conhecimento, a crítica literária aconselha engrandecer as crônicas, os contos, os romances com narradores onipresentes, dissimulados. Dar, de fato, importância a esse coadjuvante ímpar. Creio que tenho potencial para crescer, embora pouca experiência na área. Mas queria deixar claro que estou disposto a me debruçar mais sobre esse ‘ser’ literário que pode ser tornar grandiloqüente. Se me permite, posso até dar algumas sugestões de temas, que tenho pesquisado. Eles poderiam, inclusive, marcar um ’ponto de virada’ dessas personagens, se me permite a crítica, um tanto rasas, à exceção da história sobre economia financeira apresentada no episódio anterior.

Grato por sua atenção,
Abs,

“Narrador”

29 setembro 2008

ENTRE AMIGAS - "O bê-a-bá da crise"

Por Bigorna de Bauru


- Estou preocupada com a crise...

Essa preocupação não surpreende a amiga do outro lado da linha. Afinal, senso crítico sobre os mais diversos assuntos não falta a essas donzelas. Melhor, aliás, que muitos governistas, crédulos que a crise financeira da terra do Tio Sam está longe do território verde-amarelo.

- Crise? Que crise?
- Você daria uma ótima ministra...Ora, minha amiga, a crise dos nossos vizinhos ricos (sic) do Norte...
- Claro. Estou impressionada com a rejeição do pacote por parte dos Republicanos. Mas, pra dizer a verdade, ainda não entendi bem o que aconteceu ou como começou a crise financeira...
- Minha amiga, é tudo uma questão básica de finanças. Veja: imagine que você tenha uma loja de vestidinhos de grife e decide que vai vendê-los 'na caderneta', com a intenção de agradar às suas leais freguesas – dondocas e esposas de empresários e executivos. Porque decide vender a crédito, você pode aumentar um pouquinho o preço de cada vestidinho...
- E daí?
- Ocorre que essa diferença é o chamado ‘sobre-preço’, que as dondocas pagam pelo crédito. Pois bem, o gerente do seu banco, um ousado administrador formado em curso de 'emibiêi', decide que as cadernetas das dívidas de sua loja de roupas de grifes são, afinal, um ativo recebível. Ele começa, então a adiantar dinheiro ao estabelecimento, tendo a ‘pindura das dondocas’ como garantia.
- Até aí, nenhuma novidade...
- Ocorre que, mais adiante, meia dúzia de executivos de bancos lastreia os tais recebíveis do banco e os transformam em CDB, CDO, CCD, UTI, OVNI, SOS ou qualquer outro acrônimo financeiro que ninguém sabe exatamente o que quer dizer.
- E o que isso tem a ver com a crise?
- Então, esses adicionais instrumentos financeiros alavancam o mercado de capitais. E mais. Conduzem a operações estruturadas de derivativos na BM&F, cujo lastro inicial todo mundo desconhece. Ou seja, desconhece as tais cadernetas de sua lojinha de grifes para dondocas. Esses derivativos são negociados, então, como se fossem títulos sérios, com fortes garantias reais, nos mercados de 73 países.
- Mas, como a crise acontece?
- Ela acontece quando alguém descobre que as dondocas da Vila Nova Conceição não têm dinheiro para pagar as contas porque se separaram, ou porque os maridos cortaram seus cartões de créditos ou porque eles perderam os empregos e faliram. O fato é que a sua lojinha de vestidinhos de grifes vai à falência. E toda a cadeia desmorona. Simples assim.
- Entendi...Mas mudando de assunto... Onde você comprou a sua tinta para mudar a cor dos cabelos?