Por Bigorna de Bauru
O celular toca. A amiga abre a imensa bolsa de matelassê de uma grife estrangeira. Alguns segundos se passam, enquanto o celular continua tocando a suíte número 3 de Bach dentro daquele caos. Até que o aparelho de última geração é resgatado a tempo de atender ao chamado. Do outro lado da linha, a amiga.
- Oi, tudo bem? Aconteceu alguma coisa? Você ligou cedo hoje.
- Fui ontem ao médico. Visitei aquele monumento de dois metros...
- Quem?
- O meu ortopedista.
- O que aconteceu? Você abusou dos exercícios físicos?
- Não. Estava com dores nas costas. Não agüentava mais. Liguei para o consultório do médico e ele achou melhor eu passar por uma consulta. E acabei descobrindo o problema que tenho em minha coluna.
- O qual é?
- Minha bolsa.
A bolsa da mulher é um capítulo à parte. Cientificamente, o acessório feminino não pode pesar mais do que 10% do peso das moçoilas. Elas, porém, insistem em levar o mundo nas costas. A psicanálise ainda não chegou a uma conclusão do por quê desse comportamento insano. Mas os ortopedistas, sim. Excesso de peso faz mal à coluna, aos joelhos. O ideal seria usar uma mochila, dividir as coisas em duas bolsas, pastas ou mesmo recorrer às aquelas bolsas com rodinhas. Mas a ditadura da estética, porém, segue de olhos fechados na contramão do bom uso do corpo.
- Entendo você. Acho que um dia desses vou passar pelo o que você está passando. Também exagero um pouco.
- Um pouco? Minha amiga, aquilo não era uma bolsa. Era uma cruz que eu carregava todos os dias, só que numa versão contemporânea.
- Como assim?
- Depois da consulta, cheguei em casa e fui dar uma olhadinha no que carregava dentro da bolsa. Achei 71 itens amontoados, num total de seis quilos.
- Você estava carregandos seis quilos? Setenta e um itens?
- Isso mesmo. Conte o que você tem dentro de sua bolsa e você terá uma surpresa. Pense bem: levamos pente, escovas de dente e de cabelo, pasta de dente, três batons, um gloss, pó, base, blush, delineador, rimel, corretivo, duas cadernetas de anotações, canetas, cartões de visita, cheque, documentos, óculos escuros, celular, MP3, guarda-chuva...
- Guarda-chuva? Mas você vai de caro até mesmo na padaria da esquina da sua casa. Pra que você leva guarda-chuva dentro da bolsa?
- Se furar um pneu e estiver chovendo, não vou correr o risco de desmanchar a minha chapinha. Mas o ortopedista me disse que o ideal era usar mochila porque ela distribui melhor o peso das coisas. Eu disse pra ele que não dá para sair com um vestidinho lindo de grife e de salto alto com uma mochila nas costas. Ele ficou olhando pra mim. E eu pra ele. Naqueles milésimo de segundo, fiquei na dúvida se ele me achava um ser do outro mundo ou se ele tinha diagnosticado que na verdade eu deveria visitar algum analista.
- E o que aconteceu?
- Chegamos à conclusão que minha bolsa tinha de fazer um regime bravo e perder alguns quilos. Então, eu cheguei em casa e fui rever tudo o que tinha dentro dela. Consegui tirar tudo o que era desnecessário. O restante, eu coloquei numa bolsa menor.
- Ótimo. Então, está tudo resolvido.
- Mais ou menos. Na verdade, tirei um gloss e o guarda-chuva.
- E coube tudo aquilo dentro da bolsa menor?
- Pois é. Vi com os meus próprios olhos a multiplicação do espaço. Um milagre.
07 outubro 2008
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2 comentários:
O comentário é um só..."A bolsa da mulher é um capítulo à parte"
Ótimo texto..gostei
Sady
O comentário é um só..."A bolsa da mulher é um capítulo à parte"
Ótimo texto..gostei
Sady
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