(Paródia do conto "Missa do Galo", de Machado de Assis)
Por Bigorna de Bauru
Nunca pude entender a conversação que tive com um senhor, há muitos anos, contava eu quinze e pouco, ele quarenta e tantos. Era noite da semana Santa. Havendo ajustado com uma vizinha irmos ao Terço, preferi não dormir; combinei que eu iria com ela mais à noite. Mas não fui de fato e não sei bem o por quê.
A casa em que eu estava hospedada era a do dentista Meneses, que fora casado, em primeira núpcias, com uma de minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem, quando vim de Assis para o Rio de Janeiro. Vivia tranquila, naquela casa assobradada da rua da Alegria, com os meus livrinhos, poucas relações e nenhum passeio. A família era pequena, o dentista, a mulher e a sogra. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao dentista, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Doutor Meneses que ia ao consultório, tive vontade de pedir para que me levasse consigo. Mas era jovem, menina. A cada saída do doutor Meneses ao consultório, a sogra fazia uma careta. Ele vestia-se, saía e só retornava na manhã seguinte. Trabalho duro era esse do senho Meneses. Bem mais tarde é que eu soube que as emergências do consultório eram um eufemismo em ação. O doutor Meneses trazia amores com algumas senhoras, e dormia fora de casa pelo menos uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio; mas, afinalacabou achando que era muito direito.
Doutor Meneses! Aaahhh esse doutor Meneses. Chamavam-lhe de Doutor Meneses, e fazia jus ao título, tão facilmente suportava a vida dura que tinha. Em verdade, era um temperamento sisudo, sem extremos, nem grandes roupantes, nem grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometano; aceitaria um harém, com as aparências salvas de um varão. Deus me perdoe, se o julgo mal. Tudo nele era robusto e ativo. O próprio rosto era grandeloquente. Era o que chamamos um homem cortez...ão.
Naquela noite qualquer da semana Santa foram todas para rezar o Terço na Igreja. Eu já devia estar em Assis; mas fiquei até o final da semana para acompanhar o "Terço na Cidade". A família toda tinha ido para a igreja; eu meti-me na sala da frente, vestida e pronta. Dali passaria ao corredor da entrada Mas fiquei.
Tinha comigo um livro, O Chapéuzinho Vermelho, velho livreto passado de minha avó para minha mãe. Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, enquanto a casa estava vazia, ou praticamente vazia. E devorava a historinha da menina de chapéu vermelho andando sozinha na floresta, com um lobo mau à espreita. Os minutos voavam. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da sala um vulto do Doutor Meneses.
- Ainda não foi para o Terço com todas as outras? Perguntou ele.
- Não fui não, Doutor Meneses.
- Que paciência.
Doutor Meneses entrou na sala, arrastando os chinelos. Vestia um pijama listrado branco com azul-marinho, mal apanhado na cintura, algo que não dava para se localizar de fato. Sendo homenzarão, tinha um ar de visão selvagem, não disparatada com o meu livro do lobo mau. Fechei o livrinho; ele foi sentar-se na cadeira que ficava de fronte de mim. Fitei-o um pouco. Os olhos eram de uma pessoa sem sono, talvez estivesse acostumado com os horários das emergêcias.
- Mas já está na hora de ir para a cama, disse eu.
- Que coragem a sua de ficar aqui sozinha, enquanto todos estão fora. E esperar sozinha! Não tem medo?
- Quando ouvi os passos estranhei; mas o senhor apareceu logo.
- Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é a história da Chapeuzinho Vermelho.
- Justamente: é muito bonita.
- Não tem medo de lobos?
- Não, senhor. Não tenho medo, não.
- Já leu Branca de Neve, com todos aqueles homenzinhos atrás dela?
- Tenho lá em Assis.
- Eu gosto muito de aventuras, mas leio pouco, por falta de tempo. Que outras histórias você tem lido?
Comecei a dizer-lhe os nomes de algumas. O senhor Meneses ouvia-me com a cabeça reclinada e o corpo mais ainda perto de mim e sem tirar os olhos de mim. De vez em quando, passava a língua pelos bigodes e lábios para umedecê-los. Quando acabei de falar, não me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-o endireitar a cabeça, esfregar as mãos e passar um delas no bigode; tudo sem desviar de mim os grandes olhos selvagens.
E logo alto:
- Senhor Meneses, creio que vão sendo horas, e eu...
- Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio. Quando perco uma noite, no outro dia fico em plena forma. Mas agora tmabém estou ficando velho...
- Que velho o quê, Manses, quer dizer senhor Meneses.
Tal foi o calor de minha palavra que o fez gargalhar. De costume tinha os gestos firmes e as atitudes cautelosas; agora, porém, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos firmes, entre a janela da rua e a porta do gabinete dele. Assim, com o desalinho à espreita como um lobo selvagem que trazia, dava-me uma impressão singular. Robusto embora, tinha não sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo. Parava algumas vezes, examinando-me de cima para baixo, de baixo para cima; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio.
- É a mesmo Terço na cidade ou no interior; todos os terços se parecem.
- Acredito; mas aqui há de haver mais luxo e mais gente também.
Pouco a pouco, tinha-se inclinado sobre mim novamente. Não estando abotoado, parte do pijama abriru naturalmente , e eu vi-lhe metade do tórax, muito peludo, e mais forte ainda do que podia supor. O peito parecia um tapete, que apesar da pouca claridade, podeia vê-lo perfeitamente do meu lugar. A presença do Meneses despertava-me ainda mais do que o livro do lobo mau. Continuei a dizer o que pensava das festas da interior e da cidade, e de outras coisas que me vinham à cabeça. Falava emendando os assuntos sem saber o por quê, variando deles ou tornando aos primeiros e sorrindo para vê-lo gargalhar e ver-lhe os dentes reluzentes, bem-cuidados, que luziam de brancos, um tantinho escondidos por conta do avantajado bigode. Os olhos dele não eram bem negros, mas escuros; o nariz, brilhante e ovalado, um tantinho largo, dava-lhe ao rosto um ar imperativo. Tudo, enfim, era suprlativo no Meneses. Quando eu alteava um pouco a voz, ele reprimia-me:
- Mais baixo! Os vizinhos podem ouvir.
Concordei para dizer alguma coisa, para sair da espécie de sono magnético ou o que quer que era que me tolhia a língua e os sentidos. Queria e não queria acabar a conversação. Ah! o Meneses!...A conversa ia morrendo. Na rua, o silêncio era completo. Chegamos a ficar por algum tempo, - uns dez minutos -, inteiramente calados. Um olhava para o outro. Bem perto, pertinho...As respirações ofegantes, como numa sinfonia. Ah, esse Meneses...
29 agosto 2008
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2 comentários:
Neuza, sabe o que mais gostei do texto? A prática! Além é claro do título que me fez rir muiiiiiiiiiiitooooooo.
Mas estava pensando cá com meus botões de marfim e percebi que a releitura de contos e outros clássicos da nossa literatura (ou não) é um ótimo exercício imaginativo. Um desafio mesmo.
Beijos, flor e agora vai ler meu outro comentário vai... Não fica parada aí...rs...
Bye!
Ficou muito bom, Neusa! Amei!
Beijos.
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