Por Bigorna de Bauru
Creio que seja o momento de me apresentar pessoalmente. Elas estão descontraídas e lindas como sempre. Acabaram de almoçar. A amiga casada saboreou um cherni acompanhado de espinafre ao azeite extra virgem português com pinoles. A outra amiga, solteira, adora a salada de folhas verdes com frutos do mar grelhados. Vire e mexe as duas amigas se encontram neste restaurante que faz sucesso não somente pela gastronomia de primeira linha, mas também pela bela figueira com mais de um século que abraça literalmente o local. Falarei com elas no momento do café, quando terminarem o chardonnay australiano. Um vinho branco jovem, da safra 2007. Alguns segundos se passaram ...É agora.
- Olá. Boa tarde. Tudo bem com vocês? - disse o narrador, interrompendo a conversa entre as duas amigas.
- Oi, nos conhecemos de algum lugar? - perguntou a amiga solteira com a taça de vinho branco nas mãos.
- Sim e não exatamente – respondeu o narrador tentando se explicar.
- Como assim? - perguntou a amiga casada.
- Preciso me apresentar, pois percebi que vocês duas não me reconheceram. Eu sou o narrador – explicou o narrador observando atento que as amigas não tinham sequer mudado de posição. Estavam ali, olhando pra ele como se estivessem congeladas. Boquiabertas. Até que, finalmente, uma delas se mexeu e falou.
- Você é aquele narrador? O narrador na nossa história? Aquele que queria ser personagem, que tinha ambições de crescer e tudo o mais? - metralhou a amiga solteira sem se dar conta que continuava imóvel com a taça de vinho branco em uma das mãos.
- Isso mesmo. Vim aqui me apresentar pessoalmente. Tive uma conversa séria com a autora, a senhora Bigorna - creio que neste momento é melhor se referir a ela dessa forma. E chegamos à conclusão que poderei ajudá-las no enredo das histórias.
- Ótimo, então. Seja bem-vindo. Você quer nos acompanhar na sobremesa ou no café? - perguntou a amiga casada.
- No momento, não. Obrigado. Só vim me apresentar. Tenho certeza que não faltará oportunidade para nos conhecermos melhor, afinal vamos trabalhar juntos. Um bom final de semana pra vocês duas. E um abraço no seu marido – finalizou o narrador, deixando rapidamente o local.
- Meu Deus. O que é aquilo? - perguntou amiga solteira. Estou absolutamente apaixonada pelo aquele narrador. Deus existe. Como é que a gente ainda não conhecia aquele corpo escultural de dois metros de altura? Você viu os olhos, os dentes, os cabelos? E aquelas mãos, então?
- E como vi.
- Como assim? Você é casada minha amiga.
- Sou. Mas não perdei meus ideais - respondeu a amiga casada. As duas, então, caíram na gargalhada.
22 outubro 2008
07 outubro 2008
ENTRE AMIGAS - "Cruz Contemporânea"
Por Bigorna de Bauru
O celular toca. A amiga abre a imensa bolsa de matelassê de uma grife estrangeira. Alguns segundos se passam, enquanto o celular continua tocando a suíte número 3 de Bach dentro daquele caos. Até que o aparelho de última geração é resgatado a tempo de atender ao chamado. Do outro lado da linha, a amiga.
- Oi, tudo bem? Aconteceu alguma coisa? Você ligou cedo hoje.
- Fui ontem ao médico. Visitei aquele monumento de dois metros...
- Quem?
- O meu ortopedista.
- O que aconteceu? Você abusou dos exercícios físicos?
- Não. Estava com dores nas costas. Não agüentava mais. Liguei para o consultório do médico e ele achou melhor eu passar por uma consulta. E acabei descobrindo o problema que tenho em minha coluna.
- O qual é?
- Minha bolsa.
A bolsa da mulher é um capítulo à parte. Cientificamente, o acessório feminino não pode pesar mais do que 10% do peso das moçoilas. Elas, porém, insistem em levar o mundo nas costas. A psicanálise ainda não chegou a uma conclusão do por quê desse comportamento insano. Mas os ortopedistas, sim. Excesso de peso faz mal à coluna, aos joelhos. O ideal seria usar uma mochila, dividir as coisas em duas bolsas, pastas ou mesmo recorrer às aquelas bolsas com rodinhas. Mas a ditadura da estética, porém, segue de olhos fechados na contramão do bom uso do corpo.
- Entendo você. Acho que um dia desses vou passar pelo o que você está passando. Também exagero um pouco.
- Um pouco? Minha amiga, aquilo não era uma bolsa. Era uma cruz que eu carregava todos os dias, só que numa versão contemporânea.
- Como assim?
- Depois da consulta, cheguei em casa e fui dar uma olhadinha no que carregava dentro da bolsa. Achei 71 itens amontoados, num total de seis quilos.
- Você estava carregandos seis quilos? Setenta e um itens?
- Isso mesmo. Conte o que você tem dentro de sua bolsa e você terá uma surpresa. Pense bem: levamos pente, escovas de dente e de cabelo, pasta de dente, três batons, um gloss, pó, base, blush, delineador, rimel, corretivo, duas cadernetas de anotações, canetas, cartões de visita, cheque, documentos, óculos escuros, celular, MP3, guarda-chuva...
- Guarda-chuva? Mas você vai de caro até mesmo na padaria da esquina da sua casa. Pra que você leva guarda-chuva dentro da bolsa?
- Se furar um pneu e estiver chovendo, não vou correr o risco de desmanchar a minha chapinha. Mas o ortopedista me disse que o ideal era usar mochila porque ela distribui melhor o peso das coisas. Eu disse pra ele que não dá para sair com um vestidinho lindo de grife e de salto alto com uma mochila nas costas. Ele ficou olhando pra mim. E eu pra ele. Naqueles milésimo de segundo, fiquei na dúvida se ele me achava um ser do outro mundo ou se ele tinha diagnosticado que na verdade eu deveria visitar algum analista.
- E o que aconteceu?
- Chegamos à conclusão que minha bolsa tinha de fazer um regime bravo e perder alguns quilos. Então, eu cheguei em casa e fui rever tudo o que tinha dentro dela. Consegui tirar tudo o que era desnecessário. O restante, eu coloquei numa bolsa menor.
- Ótimo. Então, está tudo resolvido.
- Mais ou menos. Na verdade, tirei um gloss e o guarda-chuva.
- E coube tudo aquilo dentro da bolsa menor?
- Pois é. Vi com os meus próprios olhos a multiplicação do espaço. Um milagre.
O celular toca. A amiga abre a imensa bolsa de matelassê de uma grife estrangeira. Alguns segundos se passam, enquanto o celular continua tocando a suíte número 3 de Bach dentro daquele caos. Até que o aparelho de última geração é resgatado a tempo de atender ao chamado. Do outro lado da linha, a amiga.
- Oi, tudo bem? Aconteceu alguma coisa? Você ligou cedo hoje.
- Fui ontem ao médico. Visitei aquele monumento de dois metros...
- Quem?
- O meu ortopedista.
- O que aconteceu? Você abusou dos exercícios físicos?
- Não. Estava com dores nas costas. Não agüentava mais. Liguei para o consultório do médico e ele achou melhor eu passar por uma consulta. E acabei descobrindo o problema que tenho em minha coluna.
- O qual é?
- Minha bolsa.
A bolsa da mulher é um capítulo à parte. Cientificamente, o acessório feminino não pode pesar mais do que 10% do peso das moçoilas. Elas, porém, insistem em levar o mundo nas costas. A psicanálise ainda não chegou a uma conclusão do por quê desse comportamento insano. Mas os ortopedistas, sim. Excesso de peso faz mal à coluna, aos joelhos. O ideal seria usar uma mochila, dividir as coisas em duas bolsas, pastas ou mesmo recorrer às aquelas bolsas com rodinhas. Mas a ditadura da estética, porém, segue de olhos fechados na contramão do bom uso do corpo.
- Entendo você. Acho que um dia desses vou passar pelo o que você está passando. Também exagero um pouco.
- Um pouco? Minha amiga, aquilo não era uma bolsa. Era uma cruz que eu carregava todos os dias, só que numa versão contemporânea.
- Como assim?
- Depois da consulta, cheguei em casa e fui dar uma olhadinha no que carregava dentro da bolsa. Achei 71 itens amontoados, num total de seis quilos.
- Você estava carregandos seis quilos? Setenta e um itens?
- Isso mesmo. Conte o que você tem dentro de sua bolsa e você terá uma surpresa. Pense bem: levamos pente, escovas de dente e de cabelo, pasta de dente, três batons, um gloss, pó, base, blush, delineador, rimel, corretivo, duas cadernetas de anotações, canetas, cartões de visita, cheque, documentos, óculos escuros, celular, MP3, guarda-chuva...
- Guarda-chuva? Mas você vai de caro até mesmo na padaria da esquina da sua casa. Pra que você leva guarda-chuva dentro da bolsa?
- Se furar um pneu e estiver chovendo, não vou correr o risco de desmanchar a minha chapinha. Mas o ortopedista me disse que o ideal era usar mochila porque ela distribui melhor o peso das coisas. Eu disse pra ele que não dá para sair com um vestidinho lindo de grife e de salto alto com uma mochila nas costas. Ele ficou olhando pra mim. E eu pra ele. Naqueles milésimo de segundo, fiquei na dúvida se ele me achava um ser do outro mundo ou se ele tinha diagnosticado que na verdade eu deveria visitar algum analista.
- E o que aconteceu?
- Chegamos à conclusão que minha bolsa tinha de fazer um regime bravo e perder alguns quilos. Então, eu cheguei em casa e fui rever tudo o que tinha dentro dela. Consegui tirar tudo o que era desnecessário. O restante, eu coloquei numa bolsa menor.
- Ótimo. Então, está tudo resolvido.
- Mais ou menos. Na verdade, tirei um gloss e o guarda-chuva.
- E coube tudo aquilo dentro da bolsa menor?
- Pois é. Vi com os meus próprios olhos a multiplicação do espaço. Um milagre.
03 outubro 2008
ENTRE AMIGAS - "Ponto de Virada"
Por ‘Narrador’
“Senhora Bigorna. Senhora, não é uma boa. Ela poderá se ofender. Apesar de ser uma escritora, ela é antes de tudo uma mulher. E mulheres se prestam atenção aos detalhes. Melhor, talvez ‘Olá Birgorna’. Não é fácil escrever para chefe. Ainda mais com o objetivo de mostrar que tenho potencial para fazer algo melhor. Mas tenho de ter coragem e criar laços mais estreitos com ela. Afinal, o que tenho a perder? Talvez o emprego, caso ela se revele uma escritora autoritária. Por outro lado, onde ela arrumará alguém como eu - um ‘Narrador’ no superlativo do substantivo masculino? Na verdade, ela pode encontrar um melhor. Há sempre ‘alguns melhores’ por aí nesse nosso mercado repleto de iniciantes, ávidos por uma oportunidade. Quer saber? Vou arriscar. Já não sou tão jovem. Mas vou mostrar que continuo voraz como tal.”
Olá, Bigorna, tudo bem?
Gostaria de marcar uma conversa para tratarmos de alguns detalhes sobre o meu trabalho como narrador de suas histórias. Queria dar algumas sugestões para que eu possa desempenhar com mais afinco o meu trabalho, sem pretensão alguma de ensinar o seu ofício. Minha intenção é dar uma guinada. Acho que o narrador deveria ser capcioso, ardiloso. Hoje em dia, como é de seu conhecimento, a crítica literária aconselha engrandecer as crônicas, os contos, os romances com narradores onipresentes, dissimulados. Dar, de fato, importância a esse coadjuvante ímpar. Creio que tenho potencial para crescer, embora pouca experiência na área. Mas queria deixar claro que estou disposto a me debruçar mais sobre esse ‘ser’ literário que pode ser tornar grandiloqüente. Se me permite, posso até dar algumas sugestões de temas, que tenho pesquisado. Eles poderiam, inclusive, marcar um ’ponto de virada’ dessas personagens, se me permite a crítica, um tanto rasas, à exceção da história sobre economia financeira apresentada no episódio anterior.
Grato por sua atenção,
Abs,
“Narrador”
“Senhora Bigorna. Senhora, não é uma boa. Ela poderá se ofender. Apesar de ser uma escritora, ela é antes de tudo uma mulher. E mulheres se prestam atenção aos detalhes. Melhor, talvez ‘Olá Birgorna’. Não é fácil escrever para chefe. Ainda mais com o objetivo de mostrar que tenho potencial para fazer algo melhor. Mas tenho de ter coragem e criar laços mais estreitos com ela. Afinal, o que tenho a perder? Talvez o emprego, caso ela se revele uma escritora autoritária. Por outro lado, onde ela arrumará alguém como eu - um ‘Narrador’ no superlativo do substantivo masculino? Na verdade, ela pode encontrar um melhor. Há sempre ‘alguns melhores’ por aí nesse nosso mercado repleto de iniciantes, ávidos por uma oportunidade. Quer saber? Vou arriscar. Já não sou tão jovem. Mas vou mostrar que continuo voraz como tal.”
Olá, Bigorna, tudo bem?
Gostaria de marcar uma conversa para tratarmos de alguns detalhes sobre o meu trabalho como narrador de suas histórias. Queria dar algumas sugestões para que eu possa desempenhar com mais afinco o meu trabalho, sem pretensão alguma de ensinar o seu ofício. Minha intenção é dar uma guinada. Acho que o narrador deveria ser capcioso, ardiloso. Hoje em dia, como é de seu conhecimento, a crítica literária aconselha engrandecer as crônicas, os contos, os romances com narradores onipresentes, dissimulados. Dar, de fato, importância a esse coadjuvante ímpar. Creio que tenho potencial para crescer, embora pouca experiência na área. Mas queria deixar claro que estou disposto a me debruçar mais sobre esse ‘ser’ literário que pode ser tornar grandiloqüente. Se me permite, posso até dar algumas sugestões de temas, que tenho pesquisado. Eles poderiam, inclusive, marcar um ’ponto de virada’ dessas personagens, se me permite a crítica, um tanto rasas, à exceção da história sobre economia financeira apresentada no episódio anterior.
Grato por sua atenção,
Abs,
“Narrador”
29 setembro 2008
ENTRE AMIGAS - "O bê-a-bá da crise"
Por Bigorna de Bauru
- Estou preocupada com a crise...
Essa preocupação não surpreende a amiga do outro lado da linha. Afinal, senso crítico sobre os mais diversos assuntos não falta a essas donzelas. Melhor, aliás, que muitos governistas, crédulos que a crise financeira da terra do Tio Sam está longe do território verde-amarelo.
- Crise? Que crise?
- Você daria uma ótima ministra...Ora, minha amiga, a crise dos nossos vizinhos ricos (sic) do Norte...
- Claro. Estou impressionada com a rejeição do pacote por parte dos Republicanos. Mas, pra dizer a verdade, ainda não entendi bem o que aconteceu ou como começou a crise financeira...
- Minha amiga, é tudo uma questão básica de finanças. Veja: imagine que você tenha uma loja de vestidinhos de grife e decide que vai vendê-los 'na caderneta', com a intenção de agradar às suas leais freguesas – dondocas e esposas de empresários e executivos. Porque decide vender a crédito, você pode aumentar um pouquinho o preço de cada vestidinho...
- E daí?
- Ocorre que essa diferença é o chamado ‘sobre-preço’, que as dondocas pagam pelo crédito. Pois bem, o gerente do seu banco, um ousado administrador formado em curso de 'emibiêi', decide que as cadernetas das dívidas de sua loja de roupas de grifes são, afinal, um ativo recebível. Ele começa, então a adiantar dinheiro ao estabelecimento, tendo a ‘pindura das dondocas’ como garantia.
- Até aí, nenhuma novidade...
- Ocorre que, mais adiante, meia dúzia de executivos de bancos lastreia os tais recebíveis do banco e os transformam em CDB, CDO, CCD, UTI, OVNI, SOS ou qualquer outro acrônimo financeiro que ninguém sabe exatamente o que quer dizer.
- E o que isso tem a ver com a crise?
- Então, esses adicionais instrumentos financeiros alavancam o mercado de capitais. E mais. Conduzem a operações estruturadas de derivativos na BM&F, cujo lastro inicial todo mundo desconhece. Ou seja, desconhece as tais cadernetas de sua lojinha de grifes para dondocas. Esses derivativos são negociados, então, como se fossem títulos sérios, com fortes garantias reais, nos mercados de 73 países.
- Mas, como a crise acontece?
- Ela acontece quando alguém descobre que as dondocas da Vila Nova Conceição não têm dinheiro para pagar as contas porque se separaram, ou porque os maridos cortaram seus cartões de créditos ou porque eles perderam os empregos e faliram. O fato é que a sua lojinha de vestidinhos de grifes vai à falência. E toda a cadeia desmorona. Simples assim.
- Entendi...Mas mudando de assunto... Onde você comprou a sua tinta para mudar a cor dos cabelos?
- Estou preocupada com a crise...
Essa preocupação não surpreende a amiga do outro lado da linha. Afinal, senso crítico sobre os mais diversos assuntos não falta a essas donzelas. Melhor, aliás, que muitos governistas, crédulos que a crise financeira da terra do Tio Sam está longe do território verde-amarelo.
- Crise? Que crise?
- Você daria uma ótima ministra...Ora, minha amiga, a crise dos nossos vizinhos ricos (sic) do Norte...
- Claro. Estou impressionada com a rejeição do pacote por parte dos Republicanos. Mas, pra dizer a verdade, ainda não entendi bem o que aconteceu ou como começou a crise financeira...
- Minha amiga, é tudo uma questão básica de finanças. Veja: imagine que você tenha uma loja de vestidinhos de grife e decide que vai vendê-los 'na caderneta', com a intenção de agradar às suas leais freguesas – dondocas e esposas de empresários e executivos. Porque decide vender a crédito, você pode aumentar um pouquinho o preço de cada vestidinho...
- E daí?
- Ocorre que essa diferença é o chamado ‘sobre-preço’, que as dondocas pagam pelo crédito. Pois bem, o gerente do seu banco, um ousado administrador formado em curso de 'emibiêi', decide que as cadernetas das dívidas de sua loja de roupas de grifes são, afinal, um ativo recebível. Ele começa, então a adiantar dinheiro ao estabelecimento, tendo a ‘pindura das dondocas’ como garantia.
- Até aí, nenhuma novidade...
- Ocorre que, mais adiante, meia dúzia de executivos de bancos lastreia os tais recebíveis do banco e os transformam em CDB, CDO, CCD, UTI, OVNI, SOS ou qualquer outro acrônimo financeiro que ninguém sabe exatamente o que quer dizer.
- E o que isso tem a ver com a crise?
- Então, esses adicionais instrumentos financeiros alavancam o mercado de capitais. E mais. Conduzem a operações estruturadas de derivativos na BM&F, cujo lastro inicial todo mundo desconhece. Ou seja, desconhece as tais cadernetas de sua lojinha de grifes para dondocas. Esses derivativos são negociados, então, como se fossem títulos sérios, com fortes garantias reais, nos mercados de 73 países.
- Mas, como a crise acontece?
- Ela acontece quando alguém descobre que as dondocas da Vila Nova Conceição não têm dinheiro para pagar as contas porque se separaram, ou porque os maridos cortaram seus cartões de créditos ou porque eles perderam os empregos e faliram. O fato é que a sua lojinha de vestidinhos de grifes vai à falência. E toda a cadeia desmorona. Simples assim.
- Entendi...Mas mudando de assunto... Onde você comprou a sua tinta para mudar a cor dos cabelos?
25 setembro 2008
ENTRE AMIGAS - "Navalha na bolsa"
Por Bigorna de Bauru
- Estou falida.
- Como assim?
- A crise internacional me atingiu em cheio. Estou falida como os bancos de investimentos norte-americanos. Na verdade, pior. Lá, eles ainda têm o governo que injeta dólares para salvar a pátria. Aqui, nem isso eu tenho.
- Mas o que aconteceu?
- Simples: abusei da lição básica de finanças. Gastei muito mais do que eu ganho.
- Isso eu já imaginava. Você precisa parar de comprar os vestidinhos Prada e os seus sapatinhos Salvatore Ferragano. Siga o exemplo do seu maridão e seja mais ponderada nos gastos.
- Sim, mas o maridão nasceu pronto. É lindo natural. Eu é que tenho de me vestir de Prada...Entende?
- Entendo, mas não concordo com essa tese. E entendo também que seu cartão de crédito deve ter explodido.
- Não sei como a conta não explodiu nos Correios. Pensariam que seria uma bomba. O que faço agora?
Pesquisas revelam que dez em cada dez brasileiros das classes C e B já se endividaram pelo menos uma vez por mau uso do cartão de crédito. A moeda de plástico é mortal. Transformou-se em uma arma dos tempos modernos e pode matar qualquer um a qualquer momento. É uma navalha que dilacera o orçamento familiar. Quantas navalhas como essa você tem dentro de sua carteira? As amigas não são exceção à regra. Pelo contrário. Tentam de toda forma administrar suas finanças a duras penas. Como trata-se hoje de uma tarefa difícil, surgiu uma nova profissão no mercado: a dos conselheiros de plantão. Eles dizem obviedades, aconselham obviedades e escrevem obviedades. Mas tudo com desenvoltura. A maioria gosta. Consome. A ciência ainda não entende bem o porquê, na medida em que se gasta mais dinheiro para consumir esses livrinhos ofertados de técnicas milagrosas para administrar o tempo, ganhar mais dinheiro e reduzir as gorduras extras do corpo. Eles estão ricos. Já, nós...
- A primeira coisa a fazer é pagar a conta. A segunda, parar de gastar.
- E como vou fazer isso?
- Para começar há série de livros que podem ajudá-la nesse momento de agonia. Por acaso, tenho um livro aqui...de um consultor que fala sobre os perfis das mulheres quando o assunto é dinheiro.
- E que perfil eu sou?...Não fale. Deixe-me adivinhar: 'a falida'.
- Passou perto: provavelmente você é a ‘batalhadora’, aquela que dá uma de David Copperfield e faz desaparecer o salário antes do final do mês.
- Puxa. Você me deu uma idéia. Se eu morrer, a conta desaparece...
- Está maluca? Quer morrer por que você torrou o seu salário em vestidinhos, sapatinhos e bolsas? Bom, voltando... Creio que um passo importante é você mudar os seus valores.
- Como assim?
Com o livrinho à mão, a amiga começou a rezar o terço dela para tentar convencer a amiga de anos o que, na verdade, ela já havia passado. Mas nunca revelou. Nâo porque não confiasse na amiga. Gostava da imagem de uma mulher de bom senso, moderada e experiente. Mas a economia mundial e globalizada tem muito a agradecer às mulheres. Afinal, como disse um dia o magnata Onassis: “o que seria de todo o dinheiro do mundo se não fossem as mulheres?"
- Veja eu, por exemplo. Não compro nenhuma roupa que custe mais do que uma geladeira.
- Por que uma geladeira e não um ferro de passar roupa ou uma televisão?
- Bom, o ferro é muito barato. Também não precisamos exagerar! Já a TV é muito cara. Você já viu quanto custa uma televisão de última geração de 42 polegadas? Uma fortuna, minha amiga. Pode apostar. Portanto, tenha como parâmetro a geladeira.
- Geladeira, ferro ou televisão, o fato é que estou linda, maravilhosa, feliz. Mas, falida. A vida é realmente cheia de contradições, não é mesmo?
- Na verdade, você precisa dar um jeito de pagar o cartão e mudar de estilo de vida. Coma mais chocolate, faça mais exercícios físicos e deixe de fazer compras... Ou...
- Ou arrume um marido rico!
- Mas você já é casada. E que eu saiba, feliz.
- Sim, mas veja: o maridão passaria a ser o meu amante. Ele ficaria com a minha melhor parte. E eu? Livro-me da pior parte dele...
- Estou falida.
- Como assim?
- A crise internacional me atingiu em cheio. Estou falida como os bancos de investimentos norte-americanos. Na verdade, pior. Lá, eles ainda têm o governo que injeta dólares para salvar a pátria. Aqui, nem isso eu tenho.
- Mas o que aconteceu?
- Simples: abusei da lição básica de finanças. Gastei muito mais do que eu ganho.
- Isso eu já imaginava. Você precisa parar de comprar os vestidinhos Prada e os seus sapatinhos Salvatore Ferragano. Siga o exemplo do seu maridão e seja mais ponderada nos gastos.
- Sim, mas o maridão nasceu pronto. É lindo natural. Eu é que tenho de me vestir de Prada...Entende?
- Entendo, mas não concordo com essa tese. E entendo também que seu cartão de crédito deve ter explodido.
- Não sei como a conta não explodiu nos Correios. Pensariam que seria uma bomba. O que faço agora?
Pesquisas revelam que dez em cada dez brasileiros das classes C e B já se endividaram pelo menos uma vez por mau uso do cartão de crédito. A moeda de plástico é mortal. Transformou-se em uma arma dos tempos modernos e pode matar qualquer um a qualquer momento. É uma navalha que dilacera o orçamento familiar. Quantas navalhas como essa você tem dentro de sua carteira? As amigas não são exceção à regra. Pelo contrário. Tentam de toda forma administrar suas finanças a duras penas. Como trata-se hoje de uma tarefa difícil, surgiu uma nova profissão no mercado: a dos conselheiros de plantão. Eles dizem obviedades, aconselham obviedades e escrevem obviedades. Mas tudo com desenvoltura. A maioria gosta. Consome. A ciência ainda não entende bem o porquê, na medida em que se gasta mais dinheiro para consumir esses livrinhos ofertados de técnicas milagrosas para administrar o tempo, ganhar mais dinheiro e reduzir as gorduras extras do corpo. Eles estão ricos. Já, nós...
- A primeira coisa a fazer é pagar a conta. A segunda, parar de gastar.
- E como vou fazer isso?
- Para começar há série de livros que podem ajudá-la nesse momento de agonia. Por acaso, tenho um livro aqui...de um consultor que fala sobre os perfis das mulheres quando o assunto é dinheiro.
- E que perfil eu sou?...Não fale. Deixe-me adivinhar: 'a falida'.
- Passou perto: provavelmente você é a ‘batalhadora’, aquela que dá uma de David Copperfield e faz desaparecer o salário antes do final do mês.
- Puxa. Você me deu uma idéia. Se eu morrer, a conta desaparece...
- Está maluca? Quer morrer por que você torrou o seu salário em vestidinhos, sapatinhos e bolsas? Bom, voltando... Creio que um passo importante é você mudar os seus valores.
- Como assim?
Com o livrinho à mão, a amiga começou a rezar o terço dela para tentar convencer a amiga de anos o que, na verdade, ela já havia passado. Mas nunca revelou. Nâo porque não confiasse na amiga. Gostava da imagem de uma mulher de bom senso, moderada e experiente. Mas a economia mundial e globalizada tem muito a agradecer às mulheres. Afinal, como disse um dia o magnata Onassis: “o que seria de todo o dinheiro do mundo se não fossem as mulheres?"
- Veja eu, por exemplo. Não compro nenhuma roupa que custe mais do que uma geladeira.
- Por que uma geladeira e não um ferro de passar roupa ou uma televisão?
- Bom, o ferro é muito barato. Também não precisamos exagerar! Já a TV é muito cara. Você já viu quanto custa uma televisão de última geração de 42 polegadas? Uma fortuna, minha amiga. Pode apostar. Portanto, tenha como parâmetro a geladeira.
- Geladeira, ferro ou televisão, o fato é que estou linda, maravilhosa, feliz. Mas, falida. A vida é realmente cheia de contradições, não é mesmo?
- Na verdade, você precisa dar um jeito de pagar o cartão e mudar de estilo de vida. Coma mais chocolate, faça mais exercícios físicos e deixe de fazer compras... Ou...
- Ou arrume um marido rico!
- Mas você já é casada. E que eu saiba, feliz.
- Sim, mas veja: o maridão passaria a ser o meu amante. Ele ficaria com a minha melhor parte. E eu? Livro-me da pior parte dele...
19 setembro 2008
ENTRE AMIGAS - "Procura-se um Machado desesperadamente"
Por Bigorna de Bauru
- Precisamos mudar isso...
- Concordo com você...Por onde começamos?
As conversas entre as duas amigas vêm e vão com tanta naturalidade que alguns minutos depois, dificilmente elas se lembrarão por onde começaram a conversa, tamanha facilidade de encontrar assuntos diferentes. Pesquisas recentes mostram que as mulheres têm essa facilidade por conta da formação cerebral, diferente da dos homens...
- Espera um pouco. Que história é essa de 'formação cerebral diferente'? Ô, narrador, não é por nada não, mas não estou gostando dessa pesquisa.
Como assim? A senhorita está falando comigo, o narrador?
- Isso mesmo! Quem mais aqui nesta história fica aí, vira-e-mexe, com essas estatísticas estranhas? Até agora tudo bem... Mas desta vez ficou esquisito. De onde vêm as suas estatísticas? Por que você não cita a fonte?
Bem, nunca pensei nisso...Mas elas todas são científicas.
- Bom, para começar, é bom você entrar no 'travessão', caso contrário ficará estranho alguém entender que você está falando diretamente com a gente.
- OK! Estou no travessão... Mas queria esclarecer que não sou eu quem define o conteúdo da narração... Sou apenas um simples narrador desta história. É um trabalho, entende? Faço o melhor que posso dentro daquilo pelo qual fui contratado.
- Entendemos tudo isso...Mas essas suas falas...vamos e venhamos, não são das melhores.
- Olha, meu trabalho é muito honesto. Dígno. Mas, novamente, vocês deveriam falar com quem manda aqui nesta história. Estou aqui me esforçando para que meu trabalho apareça cada vez mais. Quero um dia ser personagem e quem sabe um protagonista...
- Ambicioso esse narrador, você não acha amiga?
- A ambição é algo positivo para um profissional que leva a carreira a sério. Então, se vocês não estão satisfeitas com o narrador, falem com o patrão, ao autor...
- Aaaahhhhhh. O autor...é verdade.
- É autora, lembra-se? O nome dela é Bigorna.
- Bigorna?... Mas cá entre nós, nominho estranho esse?
- Parece que ela se inspirou no Machado.
- Que Machado?
- Machado de Assis...por isso Bigorna de Bauru, entende?
- Ahhhhhhh!!!!! Mais ou menos...Mas sou muito mais o Machado...em todos os sentidos.
- Realmente, o Machado é ótimo...estaríamos melhores apresentadas se estivéssemos nas mãos do Machadão, você não acha?
- Concordo...esse Machado era o máximo. Se estivéssemos trabalhando com ele, já seríamos famosas. Imortais. Estudadas e reviradas pelo avesso para nos entender...
- É verdade, também. Mas estaríamos mortas e não conheceríamos as boas coisas de hoje em dia...E tem mais: não me agrada muito essa história de ficarem nos estudando como se fossemos cadáveres na sala de anatonia de uma escola da Medicina...
- Por outro lado, talvez esse seja o preço da fama...Mas poderíamos procurar novas oportunidades de trabalho, já que as condições daqui não são das melhores.
- Você viu como está o mercado lá fora? Difícil, minha amiga...Creio que deveríamos dar um voto de confiança na nossa patroa. Afinal, ela está nos dando uma oportunidade. Pode ser até que dona Bigorna tenha algum futuro.... inesperado...
- Espero.
Elas, simultaneamente, bateram três vezes na madeira de uma cadeira...e...
- Ô narrador...Francamente. Dá pra você parar de entregar a gente nessa história, pôxa! ....Bom, mudando de assunto, do que mesmo a gente falava no começo dessa história?
- Precisamos mudar isso...
- Concordo com você...Por onde começamos?
As conversas entre as duas amigas vêm e vão com tanta naturalidade que alguns minutos depois, dificilmente elas se lembrarão por onde começaram a conversa, tamanha facilidade de encontrar assuntos diferentes. Pesquisas recentes mostram que as mulheres têm essa facilidade por conta da formação cerebral, diferente da dos homens...
- Espera um pouco. Que história é essa de 'formação cerebral diferente'? Ô, narrador, não é por nada não, mas não estou gostando dessa pesquisa.
Como assim? A senhorita está falando comigo, o narrador?
- Isso mesmo! Quem mais aqui nesta história fica aí, vira-e-mexe, com essas estatísticas estranhas? Até agora tudo bem... Mas desta vez ficou esquisito. De onde vêm as suas estatísticas? Por que você não cita a fonte?
Bem, nunca pensei nisso...Mas elas todas são científicas.
- Bom, para começar, é bom você entrar no 'travessão', caso contrário ficará estranho alguém entender que você está falando diretamente com a gente.
- OK! Estou no travessão... Mas queria esclarecer que não sou eu quem define o conteúdo da narração... Sou apenas um simples narrador desta história. É um trabalho, entende? Faço o melhor que posso dentro daquilo pelo qual fui contratado.
- Entendemos tudo isso...Mas essas suas falas...vamos e venhamos, não são das melhores.
- Olha, meu trabalho é muito honesto. Dígno. Mas, novamente, vocês deveriam falar com quem manda aqui nesta história. Estou aqui me esforçando para que meu trabalho apareça cada vez mais. Quero um dia ser personagem e quem sabe um protagonista...
- Ambicioso esse narrador, você não acha amiga?
- A ambição é algo positivo para um profissional que leva a carreira a sério. Então, se vocês não estão satisfeitas com o narrador, falem com o patrão, ao autor...
- Aaaahhhhhh. O autor...é verdade.
- É autora, lembra-se? O nome dela é Bigorna.
- Bigorna?... Mas cá entre nós, nominho estranho esse?
- Parece que ela se inspirou no Machado.
- Que Machado?
- Machado de Assis...por isso Bigorna de Bauru, entende?
- Ahhhhhhh!!!!! Mais ou menos...Mas sou muito mais o Machado...em todos os sentidos.
- Realmente, o Machado é ótimo...estaríamos melhores apresentadas se estivéssemos nas mãos do Machadão, você não acha?
- Concordo...esse Machado era o máximo. Se estivéssemos trabalhando com ele, já seríamos famosas. Imortais. Estudadas e reviradas pelo avesso para nos entender...
- É verdade, também. Mas estaríamos mortas e não conheceríamos as boas coisas de hoje em dia...E tem mais: não me agrada muito essa história de ficarem nos estudando como se fossemos cadáveres na sala de anatonia de uma escola da Medicina...
- Por outro lado, talvez esse seja o preço da fama...Mas poderíamos procurar novas oportunidades de trabalho, já que as condições daqui não são das melhores.
- Você viu como está o mercado lá fora? Difícil, minha amiga...Creio que deveríamos dar um voto de confiança na nossa patroa. Afinal, ela está nos dando uma oportunidade. Pode ser até que dona Bigorna tenha algum futuro.... inesperado...
- Espero.
Elas, simultaneamente, bateram três vezes na madeira de uma cadeira...e...
- Ô narrador...Francamente. Dá pra você parar de entregar a gente nessa história, pôxa! ....Bom, mudando de assunto, do que mesmo a gente falava no começo dessa história?
17 setembro 2008
ENTRE AMIGAS - "Vermelho opaco"
Por Bigorna de Bauru
- Voto na esquerda. E você?
- Eu também...Mas o problema é que há várias opções de 'esqueda".
- Como assim?
- Veja...se você pensar bem. Há a esquerda radical. Ou seja, totalmente à esquerda...xiita. Há também a esquerda mais ao centro, pouco mais ponderada. Nem lá, nem cá. E há ainda a esquerda da direita...
- Na verdade, hoje em dia todo mundo quer ficar na esquerda..Virou moda...Mas pensando bem, concordo com você e meu voto é mais para a esquerda da direita.
- Eu não. Estou tendendo para a esquerda mais ao centro. Mas pense bem...você acha mesmo que vermelho fica bem à direita?
- Na verdade, não acho. Vermelho à direita é muito esquisito. Mas se hoje eu fosse jovem, com certeza meu voto seria para a esquerda radical...Mas ousada, obscura. Percebo hoje que estou caminhando para a direita. E assim prefiro assumir de vez e ficar mais à direita...É até mais arejada...
- Concordo com você em relação à juventude...Se fosse há dez anos, creio que ficaria também com a esquerda radical... Mas agora sou mais centro, entende?
- Ok...Mas e o maridão? O que acha?
- Ele sempre votou por uma posição mais central. Mas percebo que ele tem se simpatizado com a esquerda-direitista...
- Bom, assim sendo...está definido...Vamos lá? Um, dois, e já...
As duas amigas fazem um esforço enorme para levantar aquela jeringonça até colocá-la no lugar...mais ao centro....
- Quel tal? Não ficou legal?
- Realmente ficou bom..Mas um sofá vermelho no centro também não é nenhuma novidade. Ainda acho que o vermelho ousaria mais se ficasse à direita...Apesar de eu achar que o vermelho já está ultrapassado.. E também não daria para colocar no vermelho mais à esquerda...radical...
- Pois é se colocássemos o vermelho lá, você teria de comprar uma samambaia e um quadro com macaco escovando os dentes...
- Concordo com você. É que na verdade, já foi a época daquela frase: "Na dúvida, fique com o vermelho"...
- Acho até que o dono da frase, o Sig Bergamin, deve também ter mudado de idéia...
- Na verdade, eu e o maridão queremos nos livrar desse peso avermelhado...desbotado e sem graça. Mas ainda não conseguimos. Estamos carregando ele há mais de 15 anos e creio que já está na hora de mudarmos...Precisamos nos libertar desse vermelho...ele envelheceu, está ultrapassado...
- Então faça como eu: além de me livrar do meu vermelho...Mude de cor..
- E qual você votou em qual?
- No branco..
- Mas o branco abre espaço para a sujeira..
- É só lavar as mãos...
- Voto na esquerda. E você?
- Eu também...Mas o problema é que há várias opções de 'esqueda".
- Como assim?
- Veja...se você pensar bem. Há a esquerda radical. Ou seja, totalmente à esquerda...xiita. Há também a esquerda mais ao centro, pouco mais ponderada. Nem lá, nem cá. E há ainda a esquerda da direita...
- Na verdade, hoje em dia todo mundo quer ficar na esquerda..Virou moda...Mas pensando bem, concordo com você e meu voto é mais para a esquerda da direita.
- Eu não. Estou tendendo para a esquerda mais ao centro. Mas pense bem...você acha mesmo que vermelho fica bem à direita?
- Na verdade, não acho. Vermelho à direita é muito esquisito. Mas se hoje eu fosse jovem, com certeza meu voto seria para a esquerda radical...Mas ousada, obscura. Percebo hoje que estou caminhando para a direita. E assim prefiro assumir de vez e ficar mais à direita...É até mais arejada...
- Concordo com você em relação à juventude...Se fosse há dez anos, creio que ficaria também com a esquerda radical... Mas agora sou mais centro, entende?
- Ok...Mas e o maridão? O que acha?
- Ele sempre votou por uma posição mais central. Mas percebo que ele tem se simpatizado com a esquerda-direitista...
- Bom, assim sendo...está definido...Vamos lá? Um, dois, e já...
As duas amigas fazem um esforço enorme para levantar aquela jeringonça até colocá-la no lugar...mais ao centro....
- Quel tal? Não ficou legal?
- Realmente ficou bom..Mas um sofá vermelho no centro também não é nenhuma novidade. Ainda acho que o vermelho ousaria mais se ficasse à direita...Apesar de eu achar que o vermelho já está ultrapassado.. E também não daria para colocar no vermelho mais à esquerda...radical...
- Pois é se colocássemos o vermelho lá, você teria de comprar uma samambaia e um quadro com macaco escovando os dentes...
- Concordo com você. É que na verdade, já foi a época daquela frase: "Na dúvida, fique com o vermelho"...
- Acho até que o dono da frase, o Sig Bergamin, deve também ter mudado de idéia...
- Na verdade, eu e o maridão queremos nos livrar desse peso avermelhado...desbotado e sem graça. Mas ainda não conseguimos. Estamos carregando ele há mais de 15 anos e creio que já está na hora de mudarmos...Precisamos nos libertar desse vermelho...ele envelheceu, está ultrapassado...
- Então faça como eu: além de me livrar do meu vermelho...Mude de cor..
- E qual você votou em qual?
- No branco..
- Mas o branco abre espaço para a sujeira..
- É só lavar as mãos...
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